Pizzas:
de vitórias e derrotados
A maré da extrema direita se quebrou mesmo, nesse segundo turno.
A esquerda mostrou novos rostos: Boulos, com 40% dos votos na cidade de São Paulo, contribui para mudar o perfil purista do PSOL; Manuela D'Ávila, no conservador Rio Grande do Sul, só foi derrotada por que se uniu tudo, mas tudo mesmo, no espectro do centro, da direita e da extrema direita gaúchas.
Em Belém outra figura do PSOL, o Deputado Federal, Edmilson também emerge num esboço de nova cena política.
Recife provou que uma frente ampla é muito mais capaz de eleger que um arranjo estreito. A disputa na família Arraes pendeu, folgadamente, para João Campos. Marilia Arraes disputou, perdeu, mas apareceu como um novo rosto da esquerda.
O PT perdeu protagonismo. Será que vai aprender alguma coisa? Sem nenhuma capital para governar o encolhimento no total geral de prefeituras foi visível.
Uma das mais saborosas derrotas foi a de Crivella, o apocalíptico prefeito do Rio de Janeiro. Os cariocas mostraram estar fartos da insanidade no poder e do show de fake news.
Em Goiânia a mais peculiar das eleições.
Vanderlan terminou em terceiro lugar, perdeu para a soma dos votos nulos, brancos e abstenções e foi derrotado por Maguito Vilela, que sequer pode fazer campanha. A campanha de Vanderlan conseguiu apenas um feito inegável: quadruplicou seu índice de rejeição, que era de esquálidos 6% para 24%, ou seja, um quarto do eleitorado não votaria de jeito nenhum no atual senador. E não votou.
Se Maguito tem o jeito de mais do mesmo – afinal é um político que vem dos anos 70 e já passou por todo tipo de cargo e função, incluindo duas prefeituras do interior (Jataí e Aparecida de Goiânia), Vanderlan encarnou a possibilidade de uma alternativa que foge do âmbito do conservadorismo para embarcar cantarolando na nau da extrema direita. Seus votos no Senado, onde atua como um dos mais fiéis entre os fiéis da bancada do governo(?) Bols*naro, definem seu alinhamento político. Dois recursos extremos usados para ganhar de qualquer forma não funcionaram. Ambos se relacionam ao estado de saúde de Maguito. Primeiro a politização da internação soou como escarnio. Segundo: o ataque ao vice de Maguito pelo fato dele ser evangélico é estranhíssimo, quando feito pelo evangélico candidato do PSD.
As eleições de 2020 mostraram um dos curiosos resultados do “combate à corrupção”. Combater a corrupção foi um dos motes para depor Dilma Rousseff, prender Lula e execrar o PT. Muita gente boa queria, de fato, se livrar de um fenômeno inerente ao processo de formação do Brasil, que foi uma colônia dominada por uma classe absurdamente corrupta, um império escravagista e uma república cuja história é marcada por regimes golpistas, truculentos e ditatoriais, nos quais a corrupção ganha o nome de favorecimento, barganha, sustentação do poder. Quinhentos de vinte anos de história não são demolidos de um golpe. O golpe de 2016 usou o discurso de combate à corrupção como argumento, assim como o de 1964 e os de 1937 e 1930 e a proclamação da república em 1889.
Um dos resultados curiosos de todo aquele “movimento” foi o fortalecimento de partidos que estiveram na proa de escândalos de corrupção nos últimos cinco anos. O MDB, de Temer, Eduardo Cunha e outros, foi o grande vitorioso em 784 municípios. Com vitória em 685 municípios, o PP aparece como segunda sigla partidária mais forte. Uma sigla que esteve relacionada, por exemplo, ao escândalo do “mensalão”, ainda na primeira década desse século, e em grande parte de outros escândalos subsequentes. Mais do mesmo.
Mas, de longe, a arma mais vistosa do chamado “combate à corrupção” foi a chamada Operação Lava Jato.
A jato ela realizava espetáculos de prisão e condução coercitiva avisados previamente à mídia e não às defesas dos processados, grampeou advogados, fez ajustes estranhos com “delatores” elevados à condição de portais da verdade entre tantos outros procedimentos “heterodoxos”. A causa justificava, sempre, os meios.
Sérgio Moro foi sua maior estrela, sua alma processante, julgante e condenante. Bateu todos os escanteios, cabeceou e validou o gol no mesmo lance. Um prodígio.
A jogada de ir para o Ministério da Justiça do candidato que terminou ajudando a eleger foi sua primeira escorregada. O confronto com o chefe, a exoneração, os processos mútuos, fizeram parte de um suposto projeto político. Moro quer ser Presidente. Ou queria.
Preferiu assumir um posto na direção executiva da firma estadunidense Alvarez & Marsal que tem, entre seus clientes as empreiteiras OAS e Odebrecht, que foram alvos de Moro na Lava Jato. A sopa de letrinhas ganhou como condimento a verdura tonificante dos dólares estadunidenses.
No final desse jogo perdemos todos. Os que se iludiram com a seriedade do combate à corrupção e os outros todos, que também pagam impostos para bancar esse jogo.
Pra iluminar esse fim de ano: São Francisco, da Igreja de São Francisco, no Rio de Janeiro. Foto que fez parte da exposição "Matéria Prima Luminosa"

Comentários
Postar um comentário