De derrotas saborosas e vitorias possíveis
A onda da extrema direita se
quebrou.
Até em Goiânia.
Em 2016 o ultra-direitista Delegado Valdir ameaçava disputar o segundo turno, em 2018 Bols*naro teve 74% dos votos no segundo turno.
Agora a extrema direita, representada por DC e PSL, somados, chegaram a 66 mil votos. Se ajuntarmos os partidos do Centrão e outros aliados do bols*narismo (PL, SD, Pros e o PSD de Vanderlan) e a extrema-direita temos cerca de 41% dos votos validos. O equivalente a soma de nulos, brancos e abstenções. Será que a anti-política perdeu a capacidade de tirar do sono essa parcela do eleitorado?
Em 2018 o PSL elegeu 52 deputados federais, 11 espiraram nos dois primeiros anos de mandato. Nas 100 maiores cidades brasileiras 57 terão segundo turno. O PSL não elegeu nenhum prefeito no primeiro turno nessas cidades e disputa o segundo turno em uma única: Sorocaba, no interior de São Paulo. O PT, por contraste, também não elegeu nenhum prefeito nessa primeira leva, mas disputa o segundo turno em 15 das maiores cidades brasileiras.
Se o PSL significa e sempre significou pouca coisa, outros agregados do governo de extrema-direita também amargaram nestas eleições. O caso mais emblemático ocorreu em São Paulo. O caso gera até um novo provérbio: errar é humano, errar sempre é russomano.
Séculos atrás (em 24 de setembro) Russomanno liderava folgadamente as pesquisas. O Datafolha o apontava com 29% da preferência dos votos paulistanos, Boulos, coitado, vegetava em terceiro lugar, com 9% das intenções de voto. Russomanno radicalizou o discurso, colou a imagem a de Bols*naro, atacou as vacinas dizendo a besteira monumental de que deveriam ser testadas em quem já está doente (Estadão, 03/11/2020). Terminou em quarto lugar, com pouco mais de 10% de votos. O PT, que insistiu numa candidatura sem fôlego, perde protagonismo para o PSOL.
No Rio de Janeiro, cuja política se move com a estabilidade de um skate descendo o morro, Crivella conseguiu se arrastar para o segundo turno. Eleito em 2016 com 59% dos votos, o sobrinho de Edir Macedo colecionou desastres e polêmicas ao longo de sua passagem pela prefeitura do Rio de Janeiro.
Crivella chega ao segundo turno, em parte, como resultado da briga entre PT e PDT. Juntos os dois partidos somaram mais votos, mas divididos vão ver uma disputa entre Paes e Crivella, mais do mesmo.
A direita tradicional ganhou espaço. DEM, MDB e PSDB elegeram multidões de prefeitos do interior e séquitos de vereadores de pequenas cidades.
Notável exceção para o PSDB de Goiás.
Depois de dominar a cena política do estado por vinte anos, o tucanato elegeu meia dúzia de prefeitos. A sombra de Marconi Perillo ainda descolore a plumagem dos tucanos.
Em Goiânia o PSDB só conseguiu melhor desempenho que o PCdoB. O PCdoB teve nomes que foram referências da esquerda de Goiás, como Aldo Arantes e Denise Carvalho, nos anos 90 sua inserção em movimentos tão diversificados quanto a juventude, a saúde, o movimento camponês e sindical garantiram um grande espaço político para o partido. Ao contrário de Porto Alegre, onde Manuela D'Ávila brilha com luz própria, ou do Maranhão, no qual Flávio Dino se acostumou a derrotar a dinastia Sarney e assemelhados, o PCdoB de Goiás desmoronou.
Hoje, sobrou o pó e a memória.
Em pó terminou a tentativa de Caiado de interferir nas eleições de Aparecida de Goiânia. Com mais de 95% dos votos no segundo maior colégio eleitoral de Goiás Gustavo Mendanha se coloca como um osso no angu do projeto de reeleição de Caiado em 2022.
No campo da esquerda o PT insistiu em erros históricos de isolacionismo e arrogância. Pagou caro em São Paulo, mas ainda elegeu uma boa quantidade de prefeitos e disputa quinze segundos turnos. O PSOL disputa em Belém, e emergiu como referência em São Paulo, o que o projeta nacionalmente. Boulos, Manuela e Dino ampliam a capacidade da esquerda de dialogo com a sociedade. O PDT segue tão confuso quanto a linha política de Ciro Gomes, o PSB tem forte identidade em Pernambuco, no nordeste, mas também é apenas uma sigla a mais na maior parte do país.
A licantropia política da extrema direita, com seus lobisomens em forma de candidatos sofreu um duro revés. A cara do Bols*naro depois das eleições é um dos presentes desses dias de chuva.
Pra fechar, a foto de um detalhe de Notre Dame, que fiz em 2015. As gárgulas tinham a função de espantar os demônios, seriam muito bem vindas ao Brasil.

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