A indomável horda de absurdos
Absurdos brotam como mosquitos de banana depois da chuva.
É quase impossível ao menos contar quantos em uma semana, os mosquitos e os absurdos.
Chove bastante, há muitos mosquitos, mas os absurdos brasileiros são insuperáveis.
Uma horda.
Horda é uma palavra de origem centro-asiática, seu significado original estava relacionado à tenda comunal que reunia e abrigava os clãs, também se relacionava ao conceito de “corte” e de povo. Tornou-se sinônimo de exército e, nas línguas do ocidente, de coisa enorme, desordenada, terrível e destrutiva.
Desordenada, terrível e destrutiva são sinônimos, codinomes do tempo atual no Brasil. Vamos falar sobre dois dos absurdos da semana. Haja espaço e cabeça.
O assassinato de João Alberto por seguranças de um Carrefour em Porto Alegre despertou os baixos instintos da horda. Muitos dos mesmos que saíram pelas ruas e praças do Brasil varonil com seus uniformes da CBF, aquele templo de lisura e moralidade, portando faixas a favor da tortura do golpe e da ditadura, e jurando não ter “bandidos de estimação” foram babar ódio nas redes sociais.
Para essa parte da horda o culpado pela morte é, sem sombra de dúvida, o assassinado. Assim conseguiram se aliar aos assassinos, que, por esse tipo particular de lógica da perversidade, são inocentes, puros e bons.
Assassinato é crime para essas cabeças luminosas?
Depende, essa é a resposta de um milhão de cruzeiros reais. Depende de quem mata e de quem morre. O índio Galdino, assassinado há 23 anos, por exemplo, chocaria pouquíssimos. O relato do caso é de Sarah Peres, publicado no Correio Brasiliense, de 20/04/18:
“A madrugada posterior à comemoração pelo Dia do Índio, em 19 de abril de 1997, chocou todo o Brasil. Por volta das 5h30 de domingo, à época, 20 de abril, cinco amigos deixavam o Centro Comercial Gilberto Salomão com um carro Monza preto, após uma noitada. Na parada de ônibus da 703 Sul, estacionaram o veículo para "brincar". No local, dormia o cacique da tribo Pataxó Hã-hã-Hãe Galdino Jesus dos Santos, 44 anos.
O quinteto, que morava no Plano Piloto, era formado por Antônio Novely Vilanova, na época com 19 anos, Max Rogério Alves, 19, Tomás Oliveira de Almeida, 19, Eron Chaves Oliveira, 18 e G.A.J., 17, estava munido com álcool e fósforos. Eles utilizaram o material para queimar vivo o indígena, que visitava Brasília pela segunda vez.”
A horda de insanidades também tem seu aspecto, digamos assim para poder ser publicado, rocambolesco. O Auxilio emergencial, estabelecido pelo Congresso Nacional no valor de 600 reais podendo chegar ao dobro em caso de mães solo, teve parte de seus recursos desviados para o financiamento de campanhas eleitorais.
As incríveis “doações” foram realizadas por 64 mil beneficiados e atingiram à polpuda soma de R$ 54 milhões e meio. Dá pra comprar muito “santinho” e mandatos de vereadores e prefeitos a rodo. O levantamento foi realizado pelo TSE cruzando dados de seis órgãos federais.
Boa parte do dinheiro veio de pessoas sem emprego formal, o que, em português significa “desempregados”. Os generosos desempregados foram doadores de nada menos que 44 milhões. Até os mortos participaram do show cívico das eleições, 24 deles doaram módicos R$ 36 mil. Comparativamente sovinas, né?! O TCU detectou que cerca de 10 mil – isso mesmo, 10 mil – candidatos com patrimônios declarados superiores a R$ 300 mil receberam, até julho passado, alguma parcela do Auxílio Emergencial. Haverá punições, processos, cadeia? Depende, sempre depende.
Arte, pra desendoidecer. Foto que faz parte da exposição "Matéria Prima Luminosa", realizada em 2018.

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