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 É possível  desnormalizar o absurdo no Brasil?

 

Este blog surgiu como um registro.

Um dia a dia insano e apresentado como absolutamente normal, ou “novo normal”, no qual o horror, a estupidez e a pura e deslavada cretinice se incorporam como cracas ao dia.

Craca é um tipo de crustáceo que tem o péssimo hábito de se grudar nos cascos dos navios. Se o casco não é limpo o navio perde velocidade, navegabilidade e pode terminar apodrecendo e afundando.

Nossas cracas são piores. Se chamam racismo, intolerância, selvageria, individualismo bárbaro, fanatismo, fascismo. Será mesmo possível mostrar essas carcas e ver que são absurdas e não “normais”?

 

Craca 1 – Assassinato de um homem negro espancado e sufocado até a morte. O horror aconteceu num Carrefour de Porto Alegre. O homem teria agredido uma funcionária da loja. O segurança e um PM temporário ( o que diabos é isso?) o arrastaram para fora. Ao invés de chamar a polícia, começaram a “pacifica-lo” ou seja, espancamento e sufocamento até a morte. 

Algumas pessoas protestaram, outras protestaram e tentaram filmar, outras filmaram e outras apreciaram a demolição, estas vão ser investigadas pela polícia. 

O pior dessa craca são os comentários tipo “esgoto aberto” nas redes sociais. Um imbecil se perguntava se avisaram os assassinos de que era um homem negro. O que uma anta dessas quer dizer com isso? O racismo é tão entranhado que ele vê apenas “vitimismo” essa coisa asquerosa divulgada pelo Serra em sua campanha de 2006 e não vê um assassinato brutal. Pra quê têm “olhos de ver” (expressão bíblica, pra mostrar que sou civilizado) se não os usa? 

A morte aconteceu na véspera do Dia da Consciência Negra, ou seja, o dia que homenageia a vida e a luta de Zumbi dos Palmares.

 

Craca 2 – A declaração do candidato vanderlan sobre a saúde de Maguito Vilela. A disputa pela Prefeitura de Goiânia foi para segundo turno e será disputada por ambos. vanderlan teve quase 140 mil votos a menos. 

Como a campanha do segundo turno tem cerca de 15 dias teria de virar pelo menos 6 mil votos por dia pra ter chance de ganhar. Para isso tem boas condições, já que o outro candidato luta pela vida contra a Covid19. Situação perfeita pra apresentar suas propostas, se colocar no páreo, dizer a que veio. O invés disso preferiu bombardear os médicos, a assessoria e a família de Maguito, dizendo que forjam uma farsa com a saúde do adversário. Ao fazer isso arrastou a campanha para o nível do esgoto. 

Na política, tradicionalmente, um candidato não ataca crianças, mulheres e pais idosos do outro. É um traço, mínimo, de civilidade. Ao colocar a possibilidade da morte de Maguito como moeda para ganhar votos o vanderlan se esquece que ninguém tem certificado de duração. 

Ninguém sabe se não será atropelado, tropeçará de um sétimo andar, contrairá Covid19 ou cairá duro com um enfarte cardíaco fulminante. Os antigos diziam que “o futuro a Deus pertence”, coisa que, até isso, ele ignorou.

Carca 3 – O que poderia ser uma ótima notícia, a chegada das primeiras doses de vacina contra a Covid19, também se transformou em um show de horrores. 

O Instituto Butantã, que recebeu as vacinas, teve de criar um super sistema de segurança, e manter o local de armazenamento das mesmas sob rigoroso sigilo. Existe a possibilidade real de sabotagens e atentados contra as vacinas. Quem planeja uma coisa dessas age a favor do vírus e da morte.

 

Carca 4 – Amapá no escuro. 

Os apagões refletem duas coisas: as privatizações fajutas, nas quais o lucro é privado e o prejuízo, se der, vem na conta de todo mundo, e o absoluto menosprezo que o Brasil tem por grande parte de seu próprio território, do povo que vive nos “estados periféricos”. É como se o Amapá e o povo daquele estado simplesmente não existissem.


Auto retrato quando jovem. Foto de 1984. Practika HTML 1000, Fujifilm 400, 1/60



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