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 COMO SER INVISÍVEL NO BRASIL



O primeiro “homem invisível” da era moderna apareceu no romance de H.G.Wells romance de 1897, no final da Era Vitoriana. O principal personagem é o Dr. Griffin. Trata-se de um cientista que desenvolve, ao longo dos anos, experiências buscando a invisibilidade. O primeiro sucesso acontece com um gato, depois Griffin aplica a fórmula da invisibilidade sobre o próprio corpo. Começa a tragédia. Ele termina por se refugiar em um vilarejo do interior da Inglaterra, Iping. Miserável, solitário e meio louco o cientista começa a roubar para financiar a pesquisa de um antídoto para a invisibilidade. Termina linchado e, enfim, visível.

Filmes, séries de televisão mantiveram versões diferenciadas da mesma história. Há duas fontes possíveis na mitologia grega. Perseu, o herói que mata a Medusa, desce aos infernos onde recebe de Hades um capacete que o torna invisível. Na mesma mitologia encontramos o Anel de Giges – mito recontado por Platão e depois pelo romano Cícero: o anel torna seu possuidor invisível e consiste em uma espécie de salvo-conduto para qualquer ação de seu possuidor.

A capa de Invisibilidade de Harry Potter, o sistema de camuflagem romulana em Star Trek, e o Um Anel, em Senhor dos Anéis, além dedezenas de personagens de quadrinhos e vídeo-games mantém a atualidade, na cultura pop, do dom ou da maldição da invisibilidade.

Há também os que teriam tudo pra ser invisíveis mas não são: os fantasmas Gasparzinho e o Penadinho, da Turma da Mônica.

Ser invisível no Brasil não requer anéis mágicos, fórmulas químicas ultra elaboradas, capacetes ou dispositivos estelares: basta ser pobre.

Os graus de invisibilidade vão aumentando se à pobreza se acrescentam a ancestralidade africana, a residência na periferia, no interior, em estados “longínquos”. Além de não enxergar outros brasileiros, também não enxergamos a maior parte do mundo. Os horrores de fome e guerra, desastres naturais, aberrações políticas que atingem a Ásia e, sobretudo, a África, são menosprezados. Nisso, somos iguais ao resto do ocidente.

Para quem não se lembra, ou nem tinha nascido, em 1993 foi realizado um plebiscito no Brasil entre República x Monarquia, Presidencialismo x Parlamentarismo. República e Presidencialismo venceram com, respectivamente, 86% e 69% dos votos. Mas as rugas e salitres das múmias monárquicas foram acordadas. 


Recordo de um debate, no início dos anos 90, no qual um defensor da Monarquia dizia que, durante o reinado de Pedro II, o salário-mínimo no Brasil foi o maior de nossa história. Primeiro, não existia lei nenhuma estabelecendo um salário-mínimo. O país era escravagista, então perguntei ao odoroso monarquista: qual era o salário-mínimo pago aos escravos? Não respondeu. O brutal manto da invisibilidade no Brasil sempre encobriu as pessoas escravizadas.

A pandemia e o pandemônio da política econômica arrasam o país, sobretudo o país dos mais pobres. Um dos motes do “governo” Temer foi a destruição da CLT com a reforma trabalhista. Diziam que ia gerar 5 milhões de empregos. Cadê? A pobreza extrema, ou seja: fome, cresce em 5,4 milhões de brasileiros somente neste ano. Em 2018 eram 9,3 milhões de miseráveis, serão quase 15 milhões de pessoas ao final de 2020. Os estudos são do Banco Mundial.

Para a classe média e a elite, a grande tragédia da pandemia é não poder fazer comprar em Miami e ficar embasbacado na Disney.

Fonte: https://exame.com/brasil/brasil-esta-voltando-ao-mapa-da-fome-diz-diretor-da-onu/


MÚSICA VIVA

Pra fechar essa edição, mais uma parceria. Letra de Itamar Pires Ribeiro e Du Oliveira, música e interpretação: Débora di Sá. O vento, rei das folhas, que varre tudo, inclusive os lunáticos no poder.


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