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Quando o absurdo é o normal, tá na hora de desnormalizar o absurdo!

Perguntas para um tempo esquisito – I

por Itamar Pires Ribeiro, escritor e jornalista


Esse ano, lugar comum, não está fácil. Não mesmo

Peste fazendo estragos, Covid19 matando, e a sensação de um tempo que é, ao mesmo tempo, muito comprido e que escorre pelos dedos. Hoje inicio uma série de artigos pra registrar essas impressões e, principalmente, pra cutucar esse tempo.

Mais uma semana bizarra. Grana grossa – perdoem a imagem – nas ínclitas nádegas de um senador. Uma história que, há algum tempo, só poderia ser delírio tremens hoje em dia é só “mais do mesmo”.

O Brasil hoje parece uma salada de séries: Dark Mirror pelo clima, Walking Deads pelos personagens e Dark pelo fim do mundo sem fim.

Antigamente se dizia que “perguntar não ofende”, hoje os que não respondem de jeito nenhum se sentem muitíssimo sensíveis com perguntas tão simples como “Por que o Queiroz depositou 89 mil reais na conta da primeira dama?”

Vamos lá. Começando com uma dúzia de perguntas.



Uma dúzia de perguntas sem resposta


1 - O que alguém faz com tufos de dinheiro nas nádegas? Fetiche? Aplicação em um tipo novo de fundo de investimento? Como os peritos vão examinar as notas, vão buscar impressões digitais ou o quê? Tinha Lobo Guará ou dólar?


2 – Vespasiano, Imperador de Roma, disse que “o dinheiro não tem cheiro”, depois de criar, a lá Guedes, um imposto sobre a utilização dos banheiros públicos. Será que ele diria a mesma coisa hoje, no Brasil?


4 – O que leva uma ministra de estado a atacar um cidadão comum quando ele diz que não quer ter filhos? Falta do que fazer? Desejo de mandar?


5 – Crianças de dez anos podem ser obrigadas a ter filhos de estupradores? Isso legitima o estupro como forma de reprodução? Será?


6 – Cadê a grande ideia produzida pela oposição brasileira pra mobilizar e acordar o país? Até quando a oposição vai se limitar a lacração, cancelamento, memes e artigos quinzenais pra Folha de São Paulo?

7 – Quem acha que Cinco Mil goianos mortos é pouco, com quantas mortes ficaria satisfeito?


8 – Pesquisas em capitais como Recife, Belo Horizonte e Rio de Janeiro indicam que cerca de 20% dos brasileiros não querem saber de vacina contra a Covid19, como? Não estão nem aí pra ninguém, incluindo eles mesmos? Se acham melhores que todo mundo?


9 – Será que a gente não conhece pessoalmente ninguém, mas ninguém mesmo, que tenha morrido com a Covid19? Ninguém que tenha comido o pão que o diabo amassou numa internação? Será que as famílias de quem morreu merecem todo esse desprezo?


10 – Você se incomodou com o calorão dos infernos? E os bichos que queimaram vivos, será que não sentiram nada?


11 – Aquele mandamento, o oitavo, que diz pra não levantar falso testemunho vale pra fake news, ou só vale quando não se concorda com o que é dito?


12 - Será que todo o absurdo que a gente vê é mesmo tão novo assim no Brasil, ou só agora estamos quase acordados e nos surpreendemos com a fedentina do bode que sempre morou na sala?



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