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Quando o absurdo é normal, está na hora de desnormalizar o absurdo!

 

O método científico é uma das grandes conquistas da civilização. Nada de novo em dizer isso, que, aliás, é o óbvio. Mas o óbvio não faz parte da receita do absurdo dos dias de hoje.

O método científico é uma excelente ferramenta para a civilização. Permite levantar hipóteses, testar se elas funcionam ou não, descartá-las, criar teorias, rever essas teorias, ou seja, ir construindo o conhecimento. Uma das características principais da ciência e, sobretudo, da evidência científica, é que ela pode ser testada e aplicada independente das crenças de quem a aplica. Um cientista brasileiro, chinês ou israelense podem realizar os mesmos experimentos e testar o que acontece. 

O método científico foi construído ao longo de séculos de pensamento e experimentação. 

Todas as grandes civilizações contribuíram para sua criação, desde Egípcios, Gregos, Astecas, Incas, Núbios, Romanos, Chineses, Persas, Árabes, Europeus. O resultado do método científico é a ciência contemporânea.

A ciência não tem nacionalidade, embora muitíssimas vezes tenha sido usada como instrumento de poder imperial. 

Ciência não tem gênero, embora a contribuição feminina tenha sido historicamente diminuída, cerceada, reprimida.

Sem ciência não sobrevivemos enquanto espécie, a longo prazo os seres humanos estarão condenados a aniquilação pelas forças incomensuráveis que moldam o sistema solar. A curto prazo a fome, as pestes e todos outros tipos de doenças nos exterminariam. Logo, não faz sentido atacar a ciência. É absurdo, mas é norma no Brasil de hoje, virou mais um absurdo a ser desnormalizado.


NA PARÇA DA APOTEOSE

A semana trouxe dois momentos "apoteóticos" - se esse termo puder ser legitimamente usado para descrever pontos mais baixos possíveis. 

Primeiro a diatribe do atual ocupante da Presidência que disse, literalmente: "Com a China, lamentavelmente, já existe um descrédito muito grande por parte da população, até porque, como muitos dizem, esse vírus teria nascido por lá". A discriminação contra a "vacina chinesa" não passa de xenofobia rastaquera.

Cloroquina, vermífugo, carrapaticida, nada disso teve ou terá comprovação científica contra o Corona vírus, mas foi promovido pelo atual governo ao status de remédio mágico, e comprado por parte da população gerando lucros imensos aos laboratórios, e gastos absurdos em sua produção.

Outro momento "apoteótico" foi produzido pelo atual Chanceler brasileiro. O Ministro das Relações Exteriores expressou seu orgulho e contentamento pela posição de "pária internacional" à qual o Brasil tem sido relegado. Em discurso na formatura do Instituto Rio Branco, onde são preparados os diplomatas brasileiros, o atual chanceler destilou esse "orgulho".

A perda de prestígio do Brasil no plano internacional vem como consequência lógica de inumeráveis atitudes dos atuais ocupantes do poder. Isso vai desde o desprezo pela questão ambiental, passa pelo alinhamento com os mais toscos regimes conservadores autoproclamados islâmicos em votações internacionais, percorre o tortuoso caminho de uma estranha xenofobia contra a China, e desagua num insensato alinhamento automático com os Estados Unidos de Trump.


Mais uma coleção de perguntas cínicas para questões irrespondíveis:


1- A China, desde meados dos anos 90, é o principal parceiro econômico do Brasil. O saldo na balança comercial - ou seja, o quanto vendemos a mais - chega a 28 bilhões de dólares. Grande parte dessa grana vai para o agronegócio, via exportação de soja, frango, carne e outros produtos agrícolas. Se a China não comprar, vão exportar pra quem, o agronegócio vai ficar feliz?


2 - Quem não quer se vacinar alega que está defendendo sua liberdade, a liberdade de contaminar e ser contaminado, espalhar e preservar vírus letais em circulação?

3 - Isso é liberdade, imbecilidade ou loucura feroz?

4 - Depois da pandemia quem ainda tem coragem de dizer que é melhor educar as crianças em casa e não na escola?

5 - Segundo dados publicados em artigo de Gabriel Marino no El País, edição de 25/10/2020, a China exportou 3,8 bilhões de máscaras, 37 milhões de trajes de proteção antiviral, 16 mil respiradores e 2,8 milhões de kits de detecção da Covid19. Além de atender uma população estimada em mais de 1,4 bilhões de pessoas (cerca de sete vezes maior que a do Brasil), a China e tornou o grande fornecedor de material para o combate e a prevenção da pandemia, fornecendo produtos sanitários básicos. Segundo o mesmo artigo a República Popular da China é a responsável por 80% da produção de todos os medicamentos no mundo. O Presidente da China, Xi Jinping,  declarou na ONU que qualquer vacina que seja desenvolvida por aquele país se tornará um "bem público global", ou seja, não será cobrada a patente para sua produção. Além disso a China criou um fundo de 2 bilhões de dólares de ajuda a países pobres para o combate à pandemia. É essa a briga que querem comprar? Há algum resquício de inteligência em estabelecer uma relação de beligerância e não de cooperação para combater a pandemia?

Os dados da matéria de  Gabriel Marino  para o El País podem ser checados no seguinte endereço: https://elpaisdigital.com.ar/contenido/reconfiguracin-del-mapa-del-poder-mundial-ascenso-de-asia-pacfico-y-el-declive-de-occidente

6 - Um dado terrível da mesma matéria é traduzido no gráfico que reproduzimos abaixo. O Brasil como campeão de mortes, na proporção de mortes/ 100 mil habitantes. Se a China tivesse a mesma incompetência demonstrada pelo Brasil o número de mortos naquele país já teria ultrapassado a marca de 1 milhão. Os quase 160 mil cidadãos brasileiros mortos parecem não comover ninguém além das famílias atingidas? 



7 - O "tonho luismo" da política externa brasileira está dando um prejuízo enorme ao país. Segundo o correspondente do grupo editorial Handelsblatt para a América do Sul, Alexander Busch  "há poucos dias, 29 bancos e fundos globais enviaram uma carta aberta ao governo brasileiro. Administradores de um total de 3,75 trilhões de dólares em ativos, eles expressaram apreensão pelo aumento do desmatamento na Amazônia e o declínio da política ambiental e de direitos humanos." Quem quiser conferir o artigo sobre a transformação do Brasil em um pária internacional o link é o seguinte: https://www.dw.com/pt-br/brasil-se-tornou-p%C3%A1ria-internacional-sem-aliados-nem-simpatias/a-54010979


8 - "O mineiro só é solidário no câncer" - essa frase faz parte da peça "Bonitinha mas ordinária ou Otto Lara Resende"  de Nelson Rodrigues. A frase (atribuída a Otto Lara, que negava sua autoria), já não seria um avanço nos dias de hoje?

9 - Outra reforma urgente deve entrar em pauta até o final de 2020. Pandemia? Não. Desemprego recorde? Não. Devastação ambiental? Não. Fim da tomada de três pinos! Quem tiver estômago e paciência pode dar uma lida na matéria de Pablo Santana, de agosto, no seguinte link: https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/por-que-o-governo-quer-acabar-com-a-tomada-de-tres-pinos-veja-o-que-mudaria-para-voce/

10 - Como o fim da tomada de três pinos afetaria a colocação de dinheiro nas nádegas ínclitas?


Pra fechar a postagem: pra quem vive falando que Deus isso, Deus aquilo, Deus me deu carro, etc, um pouco de rock - GOD WAS NEVER ON YOUR SIDE




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